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Samba atravessado, por Luiz Garcia PDF Imprimir E-mail
Escrito por Lurdinha   
Sex, 27 de Janeiro de 2012 11:29

Análise sobre o uso por autoridades públicas de camarotes da Liesa no Carnaval

Desfiles militares são acontecimentos oficiais. Na condição de festas do Estado, é natural e óbvio que para elas sejam convidados, pelo Poder Executivo, representantes do Legislativo e do Judiciário.

Inteiramente diferentes são os desfiles de escolas de samba. A elas cabe a sua organização e é delas a responsabilidade pelo sucesso da festa. Não é por acaso que a liga das escolas (a Liesa) tenha no nome o adjetivo “independente”, que estabelece e enfatiza a sua natureza de iniciativa privada. Isso não impede que, por motivo óbvio — a importância da festa para o município, o estado e, sem qualquer exagero, para a imagem do país no resto do mundo —, o poder público ajude as escolas, no que for necessário e possível.

A construção do Sambódromo está nesse caso. É também o caso da ajuda financeira da prefeitura à Liesa, que, por sinal, está sendo discutida pelo Ministério Público. Pelo visto, os promotores são contra a ajuda financeira do município às escolas, entre outros motivos por falta de licitação.

Observadores que não entendem do assunto podem argumentar que é imprudente mexer em algo que funciona direitinho há muitos anos. Mas é preciso reconhecer que o MP tem razão ao estranhar, por exemplo, que a Câmara de Vereadores tenha direito a oito camarotes do Sambódromo. É um privilégio que nada tem a ver com as atribuições e responsabilidades do Legislativo municipal. Principalmente porque talvez, quem sabe, possa inibir o entusiasmo dos vereadores na fiscalização das despesas carnavalescas da prefeitura.

Não foi por acaso que, desde o carnaval passado, as autoridades policiais do estado passaram a recusar camarotes no Sambódromo. É um exemplo que merece ser seguido por outros convidados das escolas de samba, como o governo do estado, a prefeitura, a Riotur e o Tribunal de Contas municipal.

É verdade que essas mordomias fazem parte do contrato entre a Liesa e a Riotur. O que não impede que sejam um privilégio perigoso e, sem exagero, indigno. Ele atravessa o samba.

O Globo de 27 de janeiro de 2012

Samba atravessado, por Luiz Garcia